PESQUISE

06/02/2016

Cruel Mordaça

Tristeza, Sem Esperança, Stone, Estátua

Vil mordaça que na boca cala,
pueris desejos de infinita alegria,
abortando no peito o amor que nascia,
docemente envolvido em roupa de gala.

Que doces eflúvios emanariam daí!
Almas perfumadas em gentis fluidos...
Se a negra mordaça dos odores pútridos
não ferisse de morte o que ia surgir!

Quisera que a mão que o castigo aplica
escutasse da boca o derradeiro ardor,
que antes do suplício sussurrava:"Amor,
um beijo sela o que a verdade abriga."

Pereceu a triste alma em confinada mudez
definhando mesmo depois de liberta,
pois refluxo de amor é ferida aberta,
enlutando a existência em cruel viuvez.

Um dia hei de arrancar a mordaça!
Já tão minha e de secular herança.
Para gritar que ainda tenho esperança,
de te envolver inteiro no que o amor abarca.

Boneco de Neve


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Toda a alegria que me deixa tão pasma,
vem desse toque rescendendo à paixão,
exorcizando esse maldito fantasma,
e libertando as mil correntes do chão.

Vivia reclusa em castelo assombrado,
por precoce escolha fantasiada de amor,
mas a primeira chuva revelou o estrago
e a purpurina do carnaval acabou.

O belo se fez fera aniquilando sonhos,
pisoteando a magia que esperava ali.
Fez do meu sono um despertar medonho
e de minha vida uma prisão sem fim.

Até que a voz replicada nos dedos
tomou posse dos dias e a solidão afastou.
Desafiando toda a sorte de medos
E me mostrando que o sofrimento acabou.

Mas meu desejo quis trazê-lo para mim!
E ele veio em linda fantasia glacial!
E o amor consumou nosso fim,
derretendo o gelo do meu boneco irreal.

A intensidade do pouco que foi vivido,
há de me consolar os soluços no peito.
Já que não posso mantê-lo comigo,
hei de esperar um novo inverno perfeito.

Contemplação


Homem, Horizonte, Paisagem, Mar, Areia


Benditas as paragens que teu olhar acolhe
os pensamentos dispostos em novelo de lã,
questionando, inquieto, por que a vida escolhe,
sofrimentos frementes qual febre terçã.

"Que olhas, amado, tão longe de mim?
 Acaso não vês que estou logo aqui?"

Pesarosa expressão acompanha esse olhar,
perdido acima de gelada escarpa.
Esperando, quem sabe, o horizonte curar
essa dor alojada no coração como farpa.

"Que fazes, amado, tão longe de mim?
  Acaso não vês que estou logo aqui?"

Vento frio enregelando teu lindo rosto,
desafia toda a exaustão a se lançar,
sobre as rochas que apontam o oposto,
das medidas que tomastes sem pensar.

"Que queres, amado, tão longe de mim?
 Acaso não vês que estou logo aqui?"

Deixa sepultadas tuas velhas tristezas,
entre as ermas pedras escaladas da viagem.
Respira da vida tão somente as certezas,
do espírito liberto da pesada roupagem.

"Retorna, amado, para perto de mim!
 Acaso não vês que te amo assim?"

Saudade Tua

Silhueta, Mulher, Árvore, Paisagem

A tal saudade é leviana e flor feita já brota,
sem vingar de botão para pegar de surpresa.
É a tocaia da vida que só anda em frota,
atropelando se a falta já habita a cabeça.

E a falta sentida é de quem falta se sente,
quer exista de fato ou indolente persista
na lembrança fixada sem motivo aparente,
gruda em tudo que toca como doce arnica.

Desassossego de vida que no corpo lateja,
como se fosse ferida que remédio não cura.
Maleita, caxumba ou outra dor que apareça,
não alivia o estrago que seus sintomas apura.

Sol e Lua


Amantes, Sereia, Amor, Pôr Do Sol

Olhos ansiosos encharcados de morna lua,
se alongavam à espreita do esperado enlace,
encravados na face onde o sutil disfarce,
era acarinhar a seda sob essa pele nua.

Mãos tépidas desejando o caminho
dos viris traços em suor envolvidos,
arrepiando os pelos do corpo rendido
ao amor temperado à pitada de vinho.

Arranhar-te-ei entre as coxas bem de leve,
antes de te explorar a tensão aparente.
Qual alpinista galgando cada metro de frente
em batalha de pernas e domínio de pelve.

A ponta da língua há de explorar cada curva
desse másculo corpo tensionado de amor.
Beijar-te-ei longamente absorvendo o calor
até o encaixe perfeito que a vista faz turva.

Passearei nesse corpo desbravando as trilhas,
com o toque ousado que cada canto pede.
Te agarrando forte no arrepio da pele;
Te soltando apenas para alinhar virilhas.

E o ápice virá numa explosão de prazer,
adocicando o quarto com ar de paixão.
E os corpos fundidos se entregando a exaustão,
no abraço molhado vêm o dia nascer.

Eu quero esse sol em eclipse de lua,
possuindo as certezas que o desejo criou.
Desde o toque primeiro que a voz profanou
ao encontro perfeito onde eu vou ser sua.