Era noite repleta de lua cheia
perfumada com a fragrância dos lírios
com sinfonias de grilos em delírios
que pululavam felizes na areia.
A riqueza da vida era daquela rua,
de pedras soltas no vermelho chão,
como marcos que apontavam em vão
para aquela porta que sem você é nua.
Andei na noite chutando os marcos
e o palco noturno emudeceu para mim.
E descobri que tua ausência punha fim
ao mar de sonhos que era nosso barco.
O mundo todo foi na tua mala
e meu bem mais caro coube também lá:
Foi-se contigo meu desejo de amar
com a vaidade do rubro beijo em tua pala.
Foi-se o pedido fervoroso de paixão
ante estrelas cadentes cheias de promessas.
Se até do ladrar do cão vadio tu me lesas,
podias ao menos ter me legado um caixão.
O que faço agora com todo esse nada?
E com teu pijama esquecido na cabeceira?
E com a insônia, essa infame companheira,
que do teu nome fez sua eterna toada?
Foi-se o lirismo que me enriquecia a rima,
que nascia, doce, do amor risonho,
refletindo em versos aquele nosso sonho
de chegarmos juntos ao andar de cima.
Lembro das nossas conversas ao portão
intercaladas por declarações de amor perene,
e das juras prateadas de lua em voz solene,
e do nosso barzinho, e do apelo daquela canção.
E agora...essa nossa rua despojou-se da riqueza
andando, cabisbaixa, no largo e gasto traje,
bradando, ácida, contra a injustiça de tamanho ultraje:
De ser apenas outra rua mergulhada na tristeza.
Era noite repleta de lua cheia...
Mas, desgraciosa, sem o ardor dos olhos teus
e sem lírios ou grilos ou risos ou Deus!
e sem porta ou aorta ou desejo na veia.
Nunca mais você...
Meu Deus! Meu verso perdeu o fôlego!
e agoniza findando trôpego...
...acho...que vou...morrer.