PESQUISE

30/03/2010

Lembranças

Banco, Outono, Floresta, Folhas, Árvores


Era noite repleta de lua cheia
perfumada com a fragrância dos lírios
com sinfonias de grilos em delírios
que pululavam felizes na areia.

A riqueza da vida era daquela rua,
de pedras soltas no vermelho chão,
como marcos que apontavam em vão
para aquela porta que sem você é nua.

Andei na noite chutando os marcos 
e o palco noturno emudeceu para mim.
E descobri que tua ausência punha fim
ao mar de sonhos que era nosso barco.

O mundo todo foi na tua mala
e meu bem mais caro coube também lá:
Foi-se contigo meu desejo de amar
com a vaidade do rubro beijo em tua pala.

Foi-se o pedido fervoroso de paixão
ante estrelas cadentes cheias de promessas.
Se até do ladrar do cão vadio tu me lesas,
podias ao menos ter me legado um caixão.

O que faço agora com todo esse nada?
E com teu pijama esquecido na cabeceira?
E com a insônia, essa infame companheira,
que do teu nome fez sua eterna toada? 

Foi-se o lirismo que me enriquecia a rima,
que nascia, doce, do amor risonho,
refletindo em versos aquele nosso sonho
de chegarmos juntos ao andar de cima.

Lembro das nossas conversas ao portão
intercaladas por declarações de amor perene,
e das juras prateadas de lua em voz solene,
e do nosso barzinho, e do apelo daquela canção.

E agora...essa nossa rua despojou-se da riqueza
andando, cabisbaixa, no largo e gasto traje,
bradando, ácida, contra a injustiça de tamanho ultraje:
De ser apenas outra rua mergulhada na tristeza.

Era noite repleta de lua cheia...
Mas, desgraciosa, sem o ardor dos olhos teus
e sem lírios ou grilos ou risos ou Deus!
e sem porta ou aorta ou desejo na veia.

Nunca mais você...
Meu Deus! Meu verso perdeu o fôlego!
e agoniza findando trôpego...
...acho...que vou...morrer.

Veredito :Culpado!


Apontando, Acusação, Acusar, Culpa, Dedo



Que dizer do rubro sangue que rolou inocente
acusado pelo poder que encobriu o culpado?
Se restituirá a vida do pobre coitado?
Pois que role a cabeça do juiz e do conivente!

Que dizer da fome que transtorna quem a sente
e que escraviza por não ter à mesa sequer o pão?
E se o tribunal ao incidente clama a morte sem perdão?
Pois que role a cabeça do juiz e do presidente!

Que dizer de quem matou para defender sua gente
e na sua pobreza a defesa se fez fraca?
E se clamarem que só seu sangue a justiça aplaca?
Pois que role a cabeça do juiz e a de quem consente!

Adoração


Caverna, Galeria, Subterrâneo, Pedras


Solidão, Por que tua face se desmancha em pranto
ensopando-me o espírito acabrunhado?
Por que suspiras no frio desmanchado
pela vã lembrança de algum acalanto?

  -Se meus olhos em rio se converte
   e meu corpo confunde-se às brumas,
   abandona-me então nessas furnas
   onde os ecos meu brado repete!

Dizei-me se foi o desengano
que te condenou vaguear pelo ares,
sem sol, nem lua ou mares,
só o enlevo da dor o espírito acuando.

   - Pois se minh'alma o vento transcende
   vagueando nos sonhos sozinha
   é que um anjo meu desejo acende.

   Querubim alado com denso encanto
   que no regalo de teu abandono vive,
   despertou-me com o queixume de seu canto.

Eletricidade


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Água brotou dos meus olhos sedentos,
sangue grudou na face o pejo.
E afogou minh'alma cativa.
Turbilhão! Sei lá! Manancial de desejo..

Quando desafoguei a amargura que trouxe
essa utopia de em tua marcha trilhar,
implorei ao cupido uma só noite
e penetrei esse teu debochado olhar.

Arrebentam-se as fibras do sonho
soltando os véus que encobrem a fúria
dos braços, pernas, bocas...possessão!
Coquetel brindado na luxúria.

Brisa

Reed, Gramíneas, Vento, Natureza, Planta

Se a brisa imprimir uma furtiva carícia
e em teu corpo suave deslizar,
não fujas pois é apenas meus sonhos,
que, despertos, ousam ainda te amar.

Te peço, ainda, não rias!
Que a brisa o vento roubou
com ciúme por tanta ousadia,
pois és tu também dele o feitor.

Mas, no feitiço de teus frouxos abraços
não te apiedas por tanta paixão?
Se amorosa embalo no espaço,
a inconstância do teu coração.

Lutar se a própria natureza disputa
dos teus lábios o favo de mel...
Que de doce nos conduz à loucura;
Que de amargo nos arranca do céu.

Olhos


Lobo Predador Animal Fleichfresser Olhos V

Teus olhos... punhais em brasa,
que congelam os ventos no ar,
que derretem o frio do gelo,
disputando com o sol o luar.


Teus olhos... janelas d'alma,
guardiões banhados de luz,
que palpitam no seio dos segredos,
inebriantes, os anjos seduz.


Olhas sem vê que a luz dos teus
acende o opaco brilho dos meus,
lançando fagulhas nos breus
onde perdida fui me encontrar.
Tateando -ainda minhas mãos,
Desejando -perdição na magia de pecar.


Quisera amordaçar teus olhos castanhos
e cerrar as pestanas de tua boca
com um só toque
que me fizesse louca, tua, torpe,
das vezes que calei teus olhos,
das horas que fechei tua boca.


Sois três quando devias ser um apenas.
Embora na matéria sejas um corpo:
Olhos -dissimulados - enfeitiçados gnomos;
Boca -abençoada - carnudos gomos;
Coração -fogueira ardente - meu calabouço.

Ele

Aquela notícia me pegou tão de surpresa,
que o chão, assustado, refugiou-se noutras bandas.
Perdoe-me se turvo o brilho do que à distância mandas,
brindando tua alegria com mãos trêmulas de tristeza.


É certo que desconhecias o amor que te votava,
sempre mascarado em despretenciosa amizade.
Ainda hoje doce na recordação que me invade;
Ainda ontem louca por ouvir que me amavas.


Confesso minha fraqueza em ocultar tal sentimento,
mas o temor de perdê-lo adiava a confissão.
Pelo menos, só em vê-lo abrandava a aflição
que sem ele me mantinha em profundo abatimento.


Acabou! E que o ponto vírgula não chore,
nos despojos do que fato sequer foi,
e que nas asas do ontem em rasante voe,
até que no peito só o afeto more.

Vade retro

Pensamento pousado na flor do passado,
que o vento teimoso lá vem desfolhar,
ordenando implacável à alma a olhar
para os olhos da morte na tela cravados.

Nem sempre esses olhos falaram de morte,
risonhos ao sino de dobres funestos,
servis em dá ao diabo o cabresto,
do poço sem fundo onde está sua sorte.

Já foram felizes como a dança do vento.
Do bruto cristal -o caráter forjado;
Do fruto da terra -todo o mel apurado;
Aos céus, devotados, jamais um lamento.

Amei-os com o ímpeto de nau naufragada,
que trava batalha com as ondas do mar,
redobra seu fôlego no afâ de salvar,
o brio de sentir-se pela terra afagada.

Amei-os com a força que fazem dos astros
pequenos brinquedos nas mãos dos Eantes,
espíritos do Êfeso, estrelas possantes,
guardiões do Senhor centrados no espaço.

Amei-os até que a rubra sentença
incitou o seu braço no golpe fatal,
abatendo do amor sua força vital
que ainda clama em gotas -Justiça à ofensa!

Agonizante o amor despediu-se da vida,
coroando o ódio -soberano do peito,
e incensando com fel todos os cantos do leito,
donde antes brotara a paixão suicida.

Aos olhos da tela só restou a lembrança
e já perdem o viço no livro do tempo.
O meu ódio será o outono em vento
com fúria a enxotá-los ao diabo em fiança.

Bailarino da chuva

Acrobatas reluzentes no trapézio de teu queixo,
tremulam fogosas no instante do salto,
na ânsia de despertar o teu abraço cauto,
no receio de adormecer teu sensual desleixo.

Precipitam-se na busca da perfeição dos traços,
deslizando em gotas de transparência obscena.
São lágrimas da chuva que seu ato encena
de libertar o pecado da prisão de teus braços.

E o pranto da chuva foi tão longo e sentido
que o vento ruidoso soprou sibilante,
que os olhos que a vertiam nesse fluxo abundante,
eram do céu ofuscado e por teu brilho vencido.

Nas vestes molhadas o feitiço da sedução,
enrodilhado sem pudor na harmonia dos relevos,
que, de belos, me inspiram bem mais que o enlêvo,
de beber nesse corpo o suor da exaustão.

Parece delírio contemplar teus movimentos ciganos
de livres gingados na cadência da música,
num transe alegre e insensível à muda súplica
que do céu jorra em torrentes de desenganos.

O cabelo em desalinho -da fronte a realeza,
com úmidos cachos ondulando em rebeldia,
alforriados pela aragem concretizaram a fantasia,
de mostrarem à vaidade a essência da beleza.

E a pobre chuva se fez chuvisco e depois só lua,
ainda pálida pelo tormento de vê sofrer o céu
que no luto da tristeza vestiu a noite de negro véu,
para abafar seus suspiros pelo desejo da posse tua.

No corpo molhado ainda um derradeiro beijo,
que vendo sucumbir o alento da esperança,
lançou-se ao chão com teu suor -única lembrança,
desse gozo malogrado adormecido no desejo.

Mas, se no adeus dessa paixão só restou o frio
a te podar a dança linda com gélido sopro,
eis a dádiva da espera a te adorar no topo
desse fogo que me incita a lareira de teu brio.

O choro do céu em vapor retornou à serra,
após líricas acrobacias nesse colossal picadeiro.
Se o amor é barca -és gentil gondoleiro;
E se circo - o maior espetáculo da Terra.

Armadilha

Lascívia, que fazes de mim?
Aprisionas meu pudor nessas correntes,
que imprimem tua marca no seio carente,
empalidecendo a vergonha de face carmim.


Maculastes minh'alma antes pura,
despojando-a da perenidade do amor,
pois se te obsequio desfrutando teu calor,
afasto-me da única paixão que me cura.


És volúvel e queres me tornar assim
para que a teu chamado, servil, me curve,
sem que meu pejo teu ímpeto turve,
sem que meu ímpeto te roube de mim.


O esplendor cigano tua fronte cingiu,
furtando do céu esse brilho tão mágico,
do apelo envolvente que o destino faz trágico,
àquele que à tua boca sua fraqueza uniu.


Sei! Só me elevas aos ares para lançar-me ao chão,
após teu veneno ter me viciado a vontade,
e o domínio e a coragem de repudiar tua "bondade"
e desafiar tua soberania, dizendo-te: Não!


Não nego o vazio despejado e depôsto
quando teu cedro minha vida regia,
mas o depois do teu beijo se entranhava no dia
como ressaca que só curava com desejo repôsto.


Por isso, rogo, que te afastes de mim!
e leva no bojo a olheiras do amanhecer
e os amores furtivos e tudo mais que me fez conhecer.
Só imploro: devolva-me os amigos ou apressa meu fim!

Desencontro

Escuta, moço, o constrangimento em melodia
que meus olhos tão desafinados tocam,
em débeis notas que ao peito chocam,
numa batalha entre o tormento e a fantasia.


Minhas primaveras às tuas superaram,
velozes e vitoriosas na corrida do tempo,
ganhando como prêmio só o lamento
pelo escândalo que nossos beijos inspiraram.


Quisera paralisar os ponteiros dos anos
e à tua espera abrandar meu penar,
no consolo da hipócrita ventura de estar
agradando tanto a gregos como a troianos.


Entendes, moço, porque no incêndio de teu toque
não permito que me queime inteira?
Sofro por não poder arder nessa fogueira
e aceitar que teu desejo me sufoque.


Saiba que teu amor foi o verde ramo,
que se impôs à aridez de meu coração,
e se floresceu desafiando a razão
é porque, moço, eu também te amo.


Tua paixão é o estandarte da pureza,
erigido sobre os teus imberbes pêlos,
que flutuam sedutores com o desvelo,
de quem é sol e lua e mar e natureza.


Quem sabe, um dia, o mundo abrande a fúria
com que apedreja o amor que o preconceito não poda.
Então, moço, na paixão de meu seio te acomoda
e vamos juntos romantizar o tabu da luxúria.

Meu Crepúsculo

Gerado do delírio de pomposo conde,
rasgou o insosso sonho do espírito em retiro,
e pairou, medonho, o tenebroso vampiro,
farejando o recanto onde meu horror se esconde.


Desfez-se no teatro de caretas em negra capa
bailando no ceticismo de meus olhos mudos,
e esgotou as artimanhas esperando grito agudo
que na ausência destronou a primazia da estaca.


Perfilou-se na indignação mau contida
ao perceber o ritual da cruz banido no sorriso.
Fez-se pó na brisa, fecundou meu desejo cativo,
e sua maldição resgatou minh'alma perdida.


Agora em minha janela só penetra o luar,
alumiando a pálida saudade deixada.
Essa eterna perdição não valerá mais nada
se com meu sangue não quiseres brindar.


Quão doído o martírio dessa ausência,
que dias e noites arrasta amputadas.
O mundo...Será que esposou as madrugadas?
...vestiu-se em luto de prolongada demência.

Onde estás?

Sem teu talhe esguio a nascer no horizonte,
perambulo sem rumo de olhos no chão,
coração delirando o teu nome em vão:
Onde estás, meu amor? Em que monte?


Sem teu cheiro selvagem deleitando a brisa
agonizo arfando pela mão da saudade.
O destino condeno por tamanha maldade,
inquirindo ainda: Onde estás, minha vida?


Sem teus cachos suaves me açoitando a fronte
amanheço desperta do sofrimento cativa,
adormeço no calor da paixão reprimida,
sussurrando febril: Onde estás, meu amante?


Sem você a preguiça é senhora dos dias,
inibindo do peito o reflexo do riso,
que fluía contigo dispensando o aviso
do desejo latente que em meus olhos ardia.


Teu amor era a lua que a dor apagou.
Era o bálsamo da cura, exorcismo das chagas.
A espuma diáfana do meu mar como vagas,
que em ritmado compasso a distância afagou.


Sem você o vazio me acorrentou ao tédio,
preenchendo-me no nada, embotando a visão.
Moribundo, o pranto já não rega a aflição
- sua foz esgotou repelindo o assédio.


Sem você o meu sol acamado padece,
os seus raios tremulam na palidez da geada.
Segredou-me a esperança que mantém confinada
de ouvir os teus passos no fervor dessa prece.


O teu hálito rescende ao perfume das flores,
bailando na boca talhada para o beijo,
que mora no rosto de traços tão meigos
quão belo afresco nascido de amores.


Se um dia te deparares com a calma do cais
e sozinho contemplares a beleza das águas,
hás de escutar um lamento carregado de mágoa:
Onde estás, meu amor? Meu amor, onde estás?

Beijo

Teu beijo é doce quando diz: Te amo!
E tão voraz se me diz: te quero!
E é só por ele que me destempero,
colando nos lábios o meu beijo insano.

É nesse afago que deliro, louca,
e bebo o orvalho que te serena o peito,
e esse abraço tem da meiguice o jeito,
mas, todo o mel do mundo está em tua boca.

O beijo de tua boca beija coração e alma e tudo.
É passaporte para o Éden com visto de Deus.
É o redobrar dos sinos para a tristeza no adeus.
É, na defesa do peito, guardião com escudo.

É banho cristalino que rejuvenesce a emoção,
enobrecendo o sentimento que pulsa incerto,
e se o temor da perda se insinua por perto,
ele a dissipa com redobrada sedução.

Há quem o aponte como disfarçada malícia
ou como mensageiro tirano da perdição.
Mas, que importa se é anjo ou maldição
quando me eleva em êxtase -doce carícia?

Meu Sertão

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Minha saudade vem de lá:
Onde o sol reina mais forte,
podando do povo a sorte,
que a enxada vai capinar.


Onde o consolo da peleja
é um punhado de farinha
e a cachaça que à tardinha,
mata a fome que viceja.


onde as mãos tão calejadas
como os torrões do meu Sertão,
firmes na virgília do irmão,
rezam unidas, ao céu elevadas.


Minha saudade vem de lá:
Onde a mãe no corpo definhado,
dá sangue no leite pelo filho sugado,
cuspindo na morte que o venha tirar.


Onde a luz da noite é do luar 
e a alegria vem das estrelas,
quando os corpos entrevados nas esteiras
sonham que o mundo vai melhorar.


Onde a manhã começa cedo
despertando seus filhos na madrugada, 
para que se apressem na jornada,
antes que a seca semeie o medo.


Minha saudade vem de lá:
Onde namorar ainda é pecado
e o amor é que nem melado
-cada vez mais doce ao paladar.


Onde o rapaz de pele curtida
acaricia as cordas do violão,
com os mesmos braços que soca o pilão
nos grãos de café abençoados da lida.


Onde nos galhos da cajazeira
gorjeiam o pardal e a patativa,
em louvor à natureza altiva,
que só sabe lá ser feiticeira.


É de lá minha saudade,
que sangra tão dolorida,
qual parto de vaca abatida,
pela sede de longa idade.


É no meu Nordeste de seca e fome,
de peste e sede, abandono e choro,
que peço à Deus que no estorricado morro,
repouse o corpo que dessa terra come.




Caprichos

Acossados na procura infecunda
vivemos no sopro do último fôlego,
perseguindo o anseio do que livre abunda,
e se preso escorre qual água de córrego.


Ah, Eros! És exaltado por corações leigos,
mas desprezado pelos que já sorveram teu veneno.
Dá-nos o antídoto para os pares desfeitos,
sedentos ainda da perenidade quebrada sem um aceno.


Quero-te, embora deteste tuas sequelas,
que demarcam do amanhã a nascente
nos olhos salobos da água quente,
fluindo e escorrendo e adormecendo na espera,
de que seque a fonte ficando só pedras
-monumentos frios ao herdado vazio.
Até que o sol volta a emprestar seu brilho no cio
e os olhos de pedra ousam aparar as arestas.


E, de novo, são profundos e frágeis poços.
E, de novo, vertem dissabor pela nova perda.
E, entre limo e pedra, nós somos a presa
dos caprichos que o amor distribui sem remorsos.

Pirata

Tuas promessas desfilam cor-de-rosa
no arco-íris que pintas sem emoção.
Se não podes colorir nem tua vida,
como ousas despertar meu coração?


O castanho dos meus olhos embaçou,
e desbotou o moreno do teu peito.
Se a mentira tua boca encantou,
por que o sono não aquece teu leito?


Se amores limitas à tênue esboço
de imensa teia com lábia tecida,
por que escravizas o sorriso no esforço
de sorrir para tua alma entristecida?


Se da inconstância só recebes louvores
e hasteias da conquista a bandeira,
até quando, pirata, saquearás os valores
que te oferecem partilha da fé verdadeira?

Inconstância

Hoje aplaudes a fogueira dos sentidos
sob o luminoso resplendor da juventude,
desfilando tua fresca plenitude
frente àqueles de encantos desprovidos.


Hoje gozas quando és admirado,
desfiando um rosário de trejeitos,
que exaltam másculos traços tão perfeitos
que Apolo à Zeus confessa-se ultrajado.


Hoje pisas corações que te pertencem
com o desdém de quem é alvo disputado,
açoitando os que confessam apaixonados
toda a sorte de temores que não vencem.


Hoje provas do néctar de tantos lábios
pelo prazer de entre os teus dar-lhes prisão.
Ósculo ardente que nos turva a visão,
desafiando tal poder até os sábios.


Se hoje uma alma  presenteias com teu corpo desnudo,
toma-lhes o espírito e lá dentro faz morada,
condenando-a a rastejar desvairada,
sobre os sulcos de teus pés -covas de veludo.


Hoje escarneces dos amores despertados
vaidoso a mirar-se no espelho,
e clamas aos céus em mil apelos,
da beleza e frescor jamais deserdado.


Mas, pobre criança, eis o amanhã chegando,
desvirginando-se antes teus olhos estupefatos.
vagarosamente há de pesar também teu fado,
quando perceberes tuas forças definhando.


Amanhã a pecadora matéria há de enrugar,
e dos teus lindos olhos resvalar uma lágrima.
Não maldigas tua sorte nem a lástima
de sozinho não a poderes enxugar.


Arrepende-te, belo, pela aridez de teus sentimentos!
Olha em volta, respira, sente,
respeita àquela que solitária pressente
quão mais grandiosos agora são teus pensamentos.


Exulta! Eis que entra a paixão em tua alma carcomida,
e cristaliza tua lágrima com um beijo,
e enfeitiça teus dias com um lampejo,
de que és Homem pela fé reassumida.

Pincel ou pintura?

Mariposa volúvel, a Lua se espreguiça,
esticando os alvos braços no pontual pescoço
do vagabundo Mundo -basta isso e já se atiça.
E o cheiro de carne no cio é o oxigênio do moço,
vaca, moça, cocho - Cadê a culpa?


Sensação de pecado é fado no lombo
de quem fez da noite mensageiro do sono.
Esse Édipo incestuoso disfarçado de pombo,
que impunha a anestesia dos sentidos sem dono,
tutor, pais, feitor - Por que o Original?


Suor e perfumes deliciam as luzes,
dançarinas mascaradas. Nesses carnavais os trejeitos
dos copos tinindo sobre roupas colantes e cruzes,
penduradas em fios argênteos nos peitos
sensuais, disformes, peludos - Noite, criança precoce!


Rodopio de caras sem coroas em paletós que agasalham
promessas, vozes, louvores à supremacia do amor.
Nessa Babilônia de mosaicos, os barros se talham!
Espirais de fumaça são suspiros em vapor,
de impotência, paixão, nostalgia -Quem os criou?


E por que ser pincel se posso ser pintura?
Basta! A lua já adianta os ponteiros da madrugada,
e o que aprendo se a murada só aos olhos traz fartura?

Fauno

Fauno, que pulula nos lençóis de meu leito,
que desperta o sono da irmã solidão.
Não se vá assim no meio da noite,
não se deixe adormecer na exaustão.


Te quero, Fauno, nú e belo,
com teu brilho irradiando sedução,
mesmo que apalpe sempre o apelo,
quando penso materializar a emoção.


Tuas formas perfeitas assustam a insônia
e penetro no teu mundo pagão.
E é só lá que arrisco te roubar um beijo;
E é só lá minha lasciva paixão.


Vem morar nas entranhas dos meus sonhos
e apagar desses olhos a luz!
Sopra-me na boca teu suspiro de morte
e me farás feliz como nunca fui.


Entrelaça tuas mãos nas minhas
e enlaça meu corpo no teu,
e caminha...apenas caminha.
Vamos juntos chorar meu adeus.


Agora que da matéria me despi,
posso sentir teu espírito me afagar.
Felicidade, agora que te vi,
dos meus olhos jamais vais te afastar.


Sou feliz com meu Fauno nas nuvens.
O nosso ninho vem a a lua visitar.
Nossa fome -louvor de perfumes.
Nossa sede -desejo de amar.

Boneco lindo

Boneco lindo, teu coração pulsante
e essa tez jambo são prendas que cobiço.
Por elas até a lua quedou-se pálida, perdeu o viço,
e esposou a noite para te espiar sob o negro amante.


Quem me dera ser eu o brinquedo
saciado de peraltices na prostração desse ombro...
-com vidrados olhos enfeitiçaria meu dono
e criaríamos um mundo de deliciosos folguedos.


Que divinas mãos fez desse corpo uma arte?
Teria Gepêto na perfeição de Adônis se inspirado
ao moldar essa boca que é diva do meu pecado?
Ah, esse teu toque é passagem de ida pelos sóis de Marte.


Possível fôsse, morreria todos os dias do ano
e de novo nasceria a festejar aniversários,
até vislumbrar em meio aos presentes vários
esse boneco moreno que já em sonhos amo.


Meu ciúme é chaga que só tua paixão cura,
mas teu desejo é chama que me consome a raiva.
Por que teu fogo em mim batalha trava
para apagar a brasa que meu amor apura?


Ah, não já fôsses de outra vida a razão
o teu cárcere daria no travesseiro cetim
com laços de fita a te prenderem para mim,
e serias de ursinho à fogoso alazão.

Insana lucidez


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Quero que todos me chamem de louca,
e desvairada e doidivanas e demente!
se só na anormalidade o mundo é clemente,
que me agasalhem numa camisa de força.

E que me tolham a liberdade dos sentidos,
sufocando-os com negra venda e mordaça,
no ritual que de piedade se disfarça,
para dopar a rebeldia dos vencidos.

Depois de promovida a "pobre desajustada"
e despejada na calçada como paciente terminal,
hei de desdenhar da mediocridade do "normal"
que se faz peça por vis interesses manietada.

É deveras cômodo aceitar a injustiça
se ela é generosa a quem se faz cego,
adestrando o egoísmo de cada ego
na certeza de que a caridade é postiça.

Agora já posso lançar ao ar injúrias
e blasfemar contra a opressão do sistema,
sem que meu corpo os vergões da punição tema
-o mundo perdoa da louca suas fúrias.

Meu grito se perde no eco da indiferença?
Sorriem ante meu punho erguido em protesto?
Mas...que me importa? Não cedi e até atesto
que o espírito que luta é feliz na decência.

E o que é a sanidade senão geral letargia?
Inércia cruel que fixa cenários de miséria
até que o hábito os reduza à pilhéria,
ou o amanhã os cultive com atroz nostalgia.

Finito

E a Paixão se foi em lentos passos,
desfilando, senil, sua precoce impotência,
só legando aos herdeiros profunda carência,
que a fita do tempo encarceirou no seu laço.


Saudades deixou quando mergulhou na distância,
atiçada pelos maus tratos ainda o juramento
de jamais retornar, na vibração dos lamentos,
que por certo ecoariam no despertar da inconstância.


Fiel à sua jura condenou o Amor,
o velho companheiro que se dizia eterno,
à fragilidade de quem só fingia ser terno
para manter a aparência do que já perdera o valor.


E o Amor se foi em passadas largas
arrastando consigo a amiga Harmonia,
só legando aos herdeiros a cruel agonia
que às almas torturava com agressões amargas.


O fracassado romance tardou a atinar
que desde o adeus dos nobres sentimentos
ficara nos corações tão somente os batimentos
de duas vidas que pulsavam sem,contudo, se afinar.


E enfim a separação superou os impecilhos
que turvava os caminhos da felicidade.
Legando a ele uma lição de dignidade,
e a mim o mais precioso tesouro: Meus filhos.

Vá embora!

À sombra de tua lembrança
alicercei meu futuro com incentivo,
reforçando essa mística aliança
na certeza da verdade em que vivo.


Agradeço se no adeus de ontem
deixaste-me o concreto do agora
e a ânsia de vencer que só irrompe
visto que no meu peito já não moras.


Desconheço o prazer de outro corpo
ou o aconchego escondido num afago.
Mas, galgarei a escada até o topo:
Lá o amor há de ter a placidez de um lago.


Lá, um dia, a matéria se fará água,
e a água vida, e a vida alma, e a alma luz.
E não haverá espaço para mágoa
-essa fusão só à igualdade conduz.


Hei de exorcizar o fantasma do impuro,
do incerto, do escuro, do deserto:o teu.
E à minha subida, descerás, eu juro!
E que nesta jura só encontres a cinza do que ardeu!


À sombra de tua lembrança...
Já não temo os olhos fechados,
já não tremo sozinha no quarto,
nem profano a certeza que a verdade alcança.

Volta!

Rosa perfeita de selvagens aparas,
do teu orvalho é fonte meu olho,
presenteias meu peito com o espinho que colho,
e sangras e pisas o que dantes amaras.


Rosa selvagem tua fragrância embriaga
e infecunda o seio que tua raiz abriga.
E se branco é o véu que minha dor agita,
mais negro é o teu cálice de seiva amarga.


Por que despertastes o que adormecido estava?
Se brotastes diáfana e crescestes tão bela,
e me destes o céu e o mar e a terra,
por que hoje me vendes à dor como escrava?


Eras única a me enfeitar os dias...
Tua majestade tinha celeste brilho,
e nas asas do Cupido teu amor era delírio,
e meu ventre , o abrigo desse fogo que ardia.


Bela flor, tua formosura é Olimpo...
Por que erguestes em meu peito pedestal,
destronando, aviltando, meus instintos de mortal,
se agora tua boca se faz fruto proibido?


E agora que fazer se levastes minh'alma?
Deliro nas lembranças invocando tua volta.
Mendigo, em pranto, desse amor uma esmola
que já morro. Só teu carinho me salva!

Dignidade

Quem será esse homem que passa altivo?
Nos olhos o orgulho de negra beleza
faz refém sua alma nessa fortaleza.
De tão nobre porte, qual anjo cativo.

Aos seus passos suspiram os grãos de areia,

sob a trilha ardente do rastro deixado,
reforça o acordo com a mãe-terra firmado
de acolher seus torrões como glóbulos na veia.

Os seus braços em movimentos de rara harmonia

trazem nas mãos calejadas a constância da luta,
que vitória só dá a quem firme labuta,
qual batuta regida com tenaz maestria.

Quem será esse homem de ombros erguidos?

O semblante guerreiro tem o fascínio do bravo,
que senhor nas batalhas, do amor é escravo.
Tem a beleza do bronze de modelo esculpido.

Na têmpora descansam alguns fios de prata

-louros marcando das primaveras a conquista-
que é do forte a coroa que o fraco cobiça,
mas a esse a inglória é ao viço ingrata.

Nos lábios crispados a marca da dor,

que forja o caráter e é mestra extremosa,
punindo àqueles de fé duvidosa,
louvando àquele que a supera em ardor.

Mas, quem é esse homem de andar decidido,

que o traje humilde a realeza não dobra?
E o que é o fútil quando virtude lhe sobra,
e a fartura de espírito o faz destemido?

-Eu sou tua herança contra a iniquidade,

tua arma certeira, teu bem mais precioso,
o alívio do acerto em caminho duvidoso.
Resgata-me, homem! Meu nome é Dignidade!

Pontaria

Quando disparas teu sorriso feiticeiro,
emoldurado por teus traços decididos
cativas os corações mais bandidos.
És Cupido ou -quem sabe- exímio arqueiro?


Ai!...de certeza só que imbatível és,
visto que certeira foi a flecha.
E eis o preço por te abrir uma fresta:
Adeus risos e festas e o entardecer nas marés.

29/03/2010

Riminha

Quero bem mais que tua boca ousada,
que essa fé maquiada
de uma noite roubada.


Quero bem mais que saciar o desejo,
que me perder em teu peito,
que tua pele excitada.


Quero, sim, desafiar teus instintos,
poder dizer o que sinto,
e sentir que posso dizer.


Poder dizer que te amo,
que em meus desejos e sonhos,
quero casar com você.

Platonismo

Homem, por que tardas?
O frescor de outrora tanto aguardou
que só agora descobre o quanto aguarda
no reflexo em que o espelho só não roubou o ardor.


Onde estás, homem?
A impaciência já semeia desesperança!
Amante etéreo -ou os sentidos me somem?
Meu duende das pálpebras, dá-me o sono por herança!


Em profusão as cores desfilam,
e és a energia de um incolor colorido,
camaleão abstrato que à visão se perfilam
meus anseios de cárcere nesse teu mundo escondido.


O sentido do querer é a essência do desvario
de quem espera o que não há de vir,
e se vem já não se rejeita o vazio,
e se não chega, eterno será o que cingir.


Que venha bailar nas brumas dos sonhos
ou enevoado nos espirais do pensamento,
e se fantasiado no bréu de espectros medonhos,
afugenta-os! E acasala a alma ditosa em lamento.


Só assim serás imortal na paisagem
que o coração pintou na pieguice.
E serás perfeito como o toque da aragem:
Arrepiando inconstância, ma sem par em meiguice.


Homem, questiono tua demora, é certo.
Mas, se clamo que finde é para tê-la ansiada,
dolorida...chaga infecta em peito aberto,
moléstia com receita não aviada.

Anjo

Há tempos perseguindo a perfeita rima
que perpetue em versos tua agreste beleza,
descobri agora que fracassei na peleja
por não intuir antes que és poesia viva.

Descobri então em Deus um Poeta
Divino na arte de estrofes encorpar,
vertebrando palavras sob a luz do luar
-Paciente Artesão criando obra completa.

Quem mais untaria com doce mel
a fôrma que te aconchegou a boca?
Se só ela e nenhuma outra
sabe ser Terra com nuances de Céu?

Teu toque de eternidade me incendeia,
mas é chaga viciando os sentidos,
aos teus tão facilmente rendidos,
perdidos na magia dessa teia.

Que outro por olhos estrela teria?
E Ângelus de nome tem existência mortal?
E amor que é do mundo o instante total?
Completo de vida -é perene mania.

Ou comungaria com a lua pueril timidez
que mais atiça que inibe e abrasa e prateia
a trilha onde o peito de desejo vagueia,
piscando ao disfarçar do arrepio a avidez?

Heróis da Liberdade - Aos desaparecidos políticos



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O AI-5 saiu! Correi guerreiro da paz!
E que teus pés honrem o chão adotivo
de fronteiras abertas a teu ideal altivo
antes que te imolem e esse rosto não fite mais!

Não deves com um último ósculo consolar
o coração da mãe que há de te abençoar a fuga,
se deseja o abraço caloroso à boca muda
ou a saudade à barbárie que o forte faz chorar.

Vai! Os abutres já em tua casa estão,
famintos da robusta carne -banquete farto.
Apressa-te! O cheiro de morte em trabalho de parto
já ronda o artista, vigário, repórter e irmão.

Lembras do Honestin? O companheiro destemido
das cortantes palavras virguladas de bravura?
Aprisionado foi pelos despóticos braços da tortura,
amante adúltera -suas ancas arrancam rubro gemido.

Adeus! E não mais chores pela terra ingrata
que os filhos espanca rejeitando o afeto puro!
Leves este torrão para te consolar o exílio duro
e te apoiar os pés quando a lua se fizer prata.

Oxalá teu regresso te alcance a mocidade
e converta esse pranto no orgulho da vitória,
e as precoces rugas em pendão de tua glória,
e tua história: um legado para a posteridade.

:::

Poucos dias se escoaram e que me dizes?
Não podes agora voltar! Teu país é selvagem arena!
Ou esposas essa saudade ou a morte que te acena!
ou acaso pensas que o suicídio respeitará tuas raízes?

Amigo! O calor de teu abraço já se faz frio!
Ei-los em teu encalço! Dá cá um último abraço...
Meu Deus, peço-te que lhe firme o passo
e lhe roube a vida mas não lhe tolha o brio!

Quantas vidas idealistas ceifadas, Pai!
Ainda ouço o horror dos gritos a ecoar,
o corpo disforme vendo-lhe a resistência tombar
na tortura da carne. Tantas, Pai... Quantas mais?!

Ainda vejo os imberbes pêlos na face inteligente
e a determinação dos finos lábios,
e os belos olhos mergulhados em debates sábios
questionando, indignados, a miséria de nossa gente!

No suspiro moribundo chorou pela Maria que deixara
e se foi -mártir- em meio à horrendo suplício.
No rosto a derradeira lágrima foi para o patrício
que viu ainda atado nas garras da arara.

À Pátria oferendou as chagas expostas
do macilento corpo -patético espectro do que fôra.
-Amigo, que fizestes?! - O ferro aos braços da Moura...
só para legar à terra-mãe o adubo da matéria morta!

Recebei, Pai, a ele e tantos outros bravos
com as honras que o tirano lhes negou!
Devolvei a luz aos olhos que a solitária cegou!
Como a teu Filho, às mãos guerreiras calaram os cravos!

Se o Filho do Espírito Santo desfaleceu na dor,
que dizer, Pai, dos mortais moldados em barro?
Atendes, senhor, ao desejo daqueles que narro,
SUPLICIANDO NO INFERNO O MALDITO DITADOR!

Mãe-Terra

Por mais bela a longínqua paisagem
que meus olhos fitarem na distância,
hei de amar-te sempre com zelo e constância
e reclinar-me em respeito à tua passagem.

Se meu corpo aprisionarem em terra estranha
para saciar o apetite de outros vermes
não libertarei minh'alma da matéria reles:
Torna-me-ei veneno dentro dessas entranhas!

Que meus restos só fertilizem teu ventre
e, penetrados pelo aconchego úmido
dessa eterna união, se dissolvam no gozo último
que explodirá no verde de tua semente.

Adubar quem me firmou os passos,
ora suaves se no deleite de matutina paixão,
ora agressivos no peso noturno desses amores falsos,

é regozijo de devedor exultante em razão,
da dívida resgatada, de carnais elos quebrados
no aceno da metade além dos muros da prisão.

Mundo, mundo

Sempre que a ousada noite despenca
fraturo cabeça, membros e corpo,
e se no laser prateado uiva a solidão do lobo
eu me estilhaço nos grãos desse desejo que me tenta.

Ah, idílico mundo de mutante patente...
Teu cenário miseravelmente bucólico é dia
mistificado pelos espiões noturnos em poesia,
fluindo mazelas e amores e estrelas, tão somente.

Mas, sou toda olfato a te rastrear,
possuindo-te inteiro nos olhos cerrados,
nos verdes tapetes de braços travados
excito a vastidão que almejo abraçar.

E teu orvalho úmido tremula na entrega
e em vão empurra meu louco ímpeto
e se contorce ao vê a lascívia tão cega,

até trovejar no instante do tímido gozo
derramando rios e lagos e mares e chão
e travestindo-se ,enfim, em garanhão fogoso.

28/03/2010

Confusão

Antegozo é penetrar nos teus olhos melosos,
safados, maviosos...-Não mais me fite!
Deixe ao resto o resto!
O resto... e que meu pudor não o cite!

Gozo é sentir a quentura dos segundos
que antecedem a melosidade desses olhos penetrados,
desmaiados, arfantes... - Ei-los, enfim!
E o resto restante -posso? - adentrados!

Tensão esticada...
Lesão em cada...
Não! Calada!
...
...
Qual! Nem patativa nem rouxinol!
É galo mesmo! Acorda!
Amordaça esses olhos inchados,
que o sol já bate à porta.

Por desjejum toma lá minha preguiça,
à duras penas de ouvido atento.
Se ficas, destrona-a da cama suada,
nossa Pasárgada...malevolência de balançado alento.

Tensão saciada.
Razão resgatada.
E... mais nada!