PESQUISE

30/03/2010

Desencontro

Escuta, moço, o constrangimento em melodia
que meus olhos tão desafinados tocam,
em débeis notas que ao peito chocam,
numa batalha entre o tormento e a fantasia.


Minhas primaveras às tuas superaram,
velozes e vitoriosas na corrida do tempo,
ganhando como prêmio só o lamento
pelo escândalo que nossos beijos inspiraram.


Quisera paralisar os ponteiros dos anos
e à tua espera abrandar meu penar,
no consolo da hipócrita ventura de estar
agradando tanto a gregos como a troianos.


Entendes, moço, porque no incêndio de teu toque
não permito que me queime inteira?
Sofro por não poder arder nessa fogueira
e aceitar que teu desejo me sufoque.


Saiba que teu amor foi o verde ramo,
que se impôs à aridez de meu coração,
e se floresceu desafiando a razão
é porque, moço, eu também te amo.


Tua paixão é o estandarte da pureza,
erigido sobre os teus imberbes pêlos,
que flutuam sedutores com o desvelo,
de quem é sol e lua e mar e natureza.


Quem sabe, um dia, o mundo abrande a fúria
com que apedreja o amor que o preconceito não poda.
Então, moço, na paixão de meu seio te acomoda
e vamos juntos romantizar o tabu da luxúria.

Nenhum comentário: